|
.:
Pedagogia Vivencial : Programas Educacionais :
IFCE :.
|
| ::
Livro |
|
|
Capa
da primeira
edição. Laborciência
Editora, SP, 1997. |
|
O livro E agora, Professor?
está sendo reeditado, incluindo a teoria que
consubstancia uma Pedagogia Vivencial. A obra estará
disponível, a partir de março de 2004,
com o novo título:
E
agora, professor?
Por uma Pedagogia Vivencial
Cassiano Zeferino de Carvalho Neto e Maria Taís
de Melo
IFCE - CRIARP
|
:: HISTÓRICO DA OBRA
Ao finalizar a leitura da obra "E agora professor?"1
publicada em 1997 pelo Professor Cassiano Zeferino de Carvalho
Neto, pude verificar que a obra não fazia menção
a referências bibliográficas. Ao entrevistar
o autor, compreendi que a obra apesar de ter sido publicada
em 1997, havia sido escrita durante um período de 10
anos e que relatava a vivência e a trajetória
do autor. Ficou evidente que os textos ali relatados eram
de autoria de Cassiano e que o mesmo através de sua
sensibilidade e vivência educacional foi delineando
alguns conceitos e em especial uma metodologia a qual chamou
minha atenção. Ao longo das 240 paginas da obra
comecei a destacar trechos e falas e a fazer a conexão
e mais especificamente uma análise pedagógica,
intuindo estar diante de uma proposta pedagógica própria,
a qual denominei "Pedagogia Vivencial".
Foi assim que Cassiano e eu começamos a delinear os
pressupostos teórico-metodológicos da Pedagogia
Vivencial.
Palavras chave: pedagogia, vivência, aprendizagem significativa.
1
CARVALHO NETO, C. Z. E agora, professor?. Laborciência
Editora. São Paulo, 1997.
:: Pedagogia Vivencial
A educação é um processo complexo
e como tal não é passível de definições
lineares. O desafio que nos é apresentado hoje, enquanto
educadores, é o despertar de uma nova cultura docente.
Entendendo cultura como um conjunto de valores e normas que
sustentam uma determinada sociedade, podemos dizer que precisamos
repensar os valores e os princípios que estão
embasando nossa prática docente.
Nosso desafio maior é, a partir da motivação
decorrente do aflorar desta nova cultura docente, construirmos
nossa síntese pedagógica, ou seja, a partir
das diversas teses dos autores que nortearam nossa prática
pedagógica, encontrar caminhos alternativos que venham
facilitar a instauração de um processo que contemple
uma aprendizagem significativa no processo ensino-aprendizagem.
A Pedagogia Vivencial é uma teoria para a reflexão
e ação educacional e tem por base o pressuposto
de que o homem é um ser inteligente, capaz de criar,
aprender e construir. Nesta ótica a aprendizagem é
vista como uma função complexa do cérebro
e do corpo, como um todo que propicia ao sujeito mergulhar
no mundo, em sua interpretação pessoal e nele
intervir.
A criação é um processo de suma importância
neste contexto. Criar é pensar o impensado, ver o que
ainda não existe e ser capaz de materializar a própria
produção criativa. Para que se estabeleça
o ato criativo é preciso: intuição, motivação,
referenciais internos e externos, incentivo e autoconfiança.
:: Como se dá o processo
de construção do conhecimento?
A construção de conhecimentos fundamenta-se
num processo interativo-vivencial através do qual o
sujeito confronta sua visão de mundo com a informação
interpretada, reflexiona e é capaz de construir suas
próprias concepções e estruturas de leitura
e intervenção no mundo.
:: O processo vivencial na Educação
Aprender é o ato essencial da vida, associado ao
fazer. A construção do sujeito é produto
de sua interação com os meios interior e exterior
a si mesmo e daí decorrem as necessidades vitais para
manter-se em condições de sobrevivência,
minimamente adequadas e suficientes ao contexto onde está
inserido. Para o homem esta dinâmica ocorre ao longo
de toda sua vida e disso decorre a necessidade de sua extraordinária
capacidade de processamento e re-elaboração
de informações e conceitos, garantidas por seu
aparato bio-psíquico.
O "aprender" que a escola ainda hoje preconiza
tem sua concepção centrada num conjunto de saberes
socialmente valorizados, porém, em quase sua totalidade,
destituídos de significados para a gestão da
vida. Este hiato decorre de uma ruptura entre paradigmas distanciados
socialmente no tempo, não acompanhada por uma pedagogia
consistente com a conformação dos modelos de
humanidade ou de homem que vai se construindo tendo por destino
o próprio futuro.
:: Bases epistemológica
e metodológica da Pedagogia vivencial
A episteme norteadora da Pedagogia Vivencial objetiva
propiciar condições para que o homem se construa,
socialmente, como um ser com visão e poder de intervenção
integral-diferencial, isto é, que seja capaz de construir
a leitura do todo mas, também, que possa mergulhar
na análise dos diferenciais, isto é, das partes
desse mesmo todo, reconstruindo-o na integralidade-diferencialidade.
A visão vivencial pode ser compreendida como uma visão
não-simétrica como se o interagente pudesse
alcançar a visão do todo, mesmo que parcialmente,
dentro de um referencial complexo de múltiplas dimensões,
podendo também detalhar cada ponto constituinte do
mesmo espaço simbólico, integrando-o ao contexto
do sistema construído.
A metodologia adotada pela Pedagogia Vivencial é experencial.
Experienciar é criar oportunidades para vivenciar e,
esta experenciação pressupõe um currículo
vivencial que contemple três vertentes:
.: Os temas emergentes de cada grupo social em educação
.: Os grandes temas sociais
.: Os temas de ponta (das ciências) que são discutidos
na atualidade
A escola normalmente vem a reboque do desenvolvimento histórico,
científico e tecnológico, e raramente oportuniza
cenários pedagógicos para a experienciação
e construção de conhecimentos significativos.
Experienciar não é o mesmo que experimentar,
pois experienciar é um ato de vivência e experimentação
é um ato de colocar em prática o que já
foi experimentado por outro. Salienta-se que a experienciação
tem uma conexão imediata com a criação
de novos conceitos enquanto que a experimentação
tende a levar a reprodução de conhecimentos
já sistematizados.
Para fins didáticos, podemos citar um exemplo concernente
a biologia, normalmente vista como uma disciplina onde se
crê que tudo deve ser decorado, pois tudo já
está posto. Como criar algo num contexto desses?
:: Da aula convencional à
dimensão criativa e vivencial da Ciência2
A televisão, como meio de comunicação,
embora trabalhe ao nível de imagens, no plano da tela
incorpora a dimensão temporal. Através das imagens
geradas, o tempo está presente na informação.
É esta característica que a diferencia, espetacularmente,
de outros meios de comunicação.
Observamos uma tendência atual presente nas programações
das emissoras: a informação on line, em tempo
real. Um evento- como uma partida de futebol, a F-1, a Guerra
no Oriente Médio, o "OSCAR"- que ocorre num
determinado local, isto é, num referencial espaço-tempo
a quatro dimensões, será transmitido, se necessário
via satélite, para todo o planeta, suprimindo-se apenas
um dimensão espacial (imagens apresentadas, portanto,
no plano bidimensional da tela). Mas, e isso é fundamental,
a componente tempo estará presente na informação
conferindo-lhe realismo e instantaneidade.
A título de ilustração, comparemos
a tridimensionalidade da TV (duas dimensões espaciais
e uma temporal) , à bidimensionalidade de uma aula
convencional.
Constante e intensivamente, nossos alunos estão expostos
a massivas cargas televisivas. Num variado mosaico de assuntos,
as informações chegam de forma muitíssimo
atraente, através de visuais dinâmicos, de personalidades
reconhecidas, de sucessos em imagem e som. A atenção
é assim fácil presa da informação
passada de forma direta e praticamente inquestionável.
Todo um clima de expectativa é criado previamente,
com matérias interessantes e consideradas de "utilidade"
para o telespectador.
2 Texto extraído
da obra E agora, Professor?
E
o que temos durante as nossas aulas?
Não dispomos de recursos para animação,
senão os nossos próprios; e sabemos como os
utilizamos à exaustão (nossa e dos alunos...)!
Fazemos de tudo para conseguir criar um clima de expectativa
e interesse neles, mas quando chega a hora da "apresentação"
em si, de que meios dispomos para mediar o processo de apropriação
de informações específicas que pretendemos
desenvolver?
Um
instante para responder:
"Giz, lousa e voz...".
Bem, isto é, enquanto não perdemos por completo
a voz e continuamos falando, falando, falando...
Já paramos para pensar que tentamos, o tempo todo
(e sem darmos conta disso!) "recriar" a dimensão
temporal? Quando conseguimos integrar à informação
a dimensão temporal, obtemos do aluno sua atenção,
de forma espontânea.
Como
isto se torna possível?
O que ocorre é que se estabelece uma relação
de relevância entre o assunto e o sujeito. Instintivamente,
nos interessamos por aquilo que nos é útil ou
agradável, seja o que for. Mas na grande maioria das
vezes, por não dispormos de recursos adequados, competimos
em grande desvantagem com a televisão e demais multimeios
quando na verdade, deveríamos dispor deles, inteligentemente,
como poderosas mídias de trabalho.
O resultado disto pode ser sentido como um grande desgaste
pessoal que experenciamos, ao tentar em vão mover do
lugar pessoas desinteressadas pela nossa mensagem.
Vamos
a um exemplo.
Suponha que o assunto estudado esteja nos domínios
da Citologia. O professor pode ter, com um dos mais importantes
objetivos de aula, destacar as estruturas básicas de
uma célula, bem como, as diferentes funções
que apresentam. Inicia então, seu trabalho fazendo
um breve relato verbal da invenção do microscópio
e de sua utilização por Robert Hooke. Desenhos
no plano bidimensional do quadro, representando a estrutura
básica de uma célula e outras informações
expressas verbalmente. Notemos que, até esse ponto,
a "dinâmica" da aula foi essencialmente expositiva,
de apresentação bidimensional e atemporal. A
uma certa altura, um estudante pergunta acerca das dimensões
"reais" de uma célula. Esta informação
essencial esteve ausente do domínio sensível
do aluno, durante toda a exposição, pois concretamente
é algo impreciso "imaginar" a dimensão
celular. Principalmente, se não foi apresentado nenhum
padrão para permitir qualquer tipo de comparação
que levasse à alguma estimativa.
No entanto, a existência de uma lâmina preparada
e de um microscópio, mesmo rudimentar, serviria como
suporte para este processo intuitivo/racional de estimar ordens
de grandeza. Naquela "gotinha" depositada sobre
a superfície da lâmina observada, encontra-se
um verdadeiro universo!
A dimensão espaço-temporal está justamente
em se manipular a lâmina e o microscópio e em
se poderem comparar grandezas, além de se observar,
é claro, as estruturas presentes. O aspecto sensorial
e o emotivo do professor e de seus alunos encontram, nesta
vivência, um referencial comum, a partir do qual podem
trocar diversas informações relevantes e proporem
inclusive, novos problemas, mutuamente.
A ausência de uma lâmina preparada e de um microscópio
poderia ser compensada, em parte, pela existência de
um sistema televisivo ou de retroprojeção que
apresentasse (ilustrasse) os pontos mais difíceis de
serem concebidos. Neste caso a televisão emprestaria
à aula uma restituição da pseudodimensão
espaço-temporal, permitindo que o assunto fosse integrado,
de forma permanente, a uma estrutura conceitual mais ampla.
Mas, mesmo assim, não substituiria a riqueza dimensional
do método vivencial-experencial.
Ora, não se trata de sugerir uma substituição
ingênua para procedimentos pedagógicos, tais
como leitura ou resolução de problemas, pelo
uso da televisão. Fala-se aqui em aproveitar as possibilidades
ao nível de recursos acessíveis em vídeo,
pela geração de imagens, bem como de diversos
programas que visariam melhor sensibilização
e que trariam informações significativas, sem
nos esquecermos da qualidade visual, é claro.
Imagens, imagens, imagens...
Mas... note-se bem: continua-se apresentando tudo no plano
bidimensional (do quadro e giz ou do tubo de TV, ou ainda
do monitor de computador!) Acrescentamos a dimensão
temporal, através do uso da televisão e do computador,
em simulações, mas continuamos em duas dimensões
espaciais...
Podemos
ir mais além?
Muito bem. Retomamos aquela lâmina preparada e o microscópio
elementar. Se não dispomos de programas especiais de
TV, que versem sobre o tema estudado, ou de um microscópio
virtual, utilizamos o quadro e giz. Apresentamos, antes, um
cenário contextualizador que possa propiciar o interesse,
mesmo que mais imediato dos estudantes, estabelecendo um problema
bem definido a ser enfrentado. Deixe-o manusear, observar,
tocar, enfim, sensibilizar-se com o que lhe for proposto:
provoque-o com uma simples lâmina e um microscópio.
Ele desejará ver o que há naquela "gota"
e, se não souber como proceder, imediatamente solicitará
a sua ajuda! Daí para frente, o que acontecer, deverá
fazer sentido pois, a esta altura, ele já se ligou
afetivamente ao desafio proposto, o qual faz agora sentido
para sua pessoa, seu intelecto, sua sociabilidade, sua afetividade.
Este processo pôde ser pautado por um caminho mais
geral, um método vivencial, onde a postura e a prontidão
trabalhadas se consolidam em "espírito de investigação",
capaz de formular problemas e sair em busca de suas possíveis
soluções, enfim de reconstruir o mundo.
Em
resumo, podemos destacar:
Aula Expositiva: apresentada, em termos visuais,
no plano bidimensional da lousa, com recursos estritamente
verbais; a dimensão temporal depende de pré-requisitos
anteriormente incorporados pelo aluno. Esta dinâmica
de aula geralmente falha, por se ignorar os conhecimentos
anteriores dos participantes e suas reais expectativas sobre
o tema.
Aula Expositiva com recursos televisuais: acrescenta-se
através do uso de programas adequados de televisão,
vídeo, informática, retroprojeção,
projeção de slides e outros recursos semelhantes,
a dimensão temporal relativa ao tema tratado; tem-se,
ainda, a possibilidade de se obter um maior grau de sensibilização
ao nível individual e coletivo, suprindo-se, também,
as ausências de pré-requisitos necessários
à compreensão e aprofundamento do tema proposto.
Aula Vivencial-Interativa com recursos experienciais:
permite que se trabalhe ao nível de quatro dimensões,
três espaciais e uma temporal. O objeto do conhecimento
é o entre sensibilizador, proposto na forma de um problema
para investigação, dos trabalhos educativos,
desenvolvidos entre o aluno e o professor. Estabelece-se,
assim, uma relação de cunho libertador por colocar
o conhecimento específico bem como a experiência
do professor, à disposição do estudante.
O enfoque do trabalho pedagógico deixa de ser o "vou
ensinar (= dar aula)" e passa a ser o "necessito
saber (=descubro minhas potencialidades, construo meu conhecimento)".
:: Considerações
finais
Queremos aqui instigar o educador, corajosamente, a enfrentar
o cenário ameaçador e desmotivador em que pode
estar vivendo hoje. Para isso não será preciso
jogar fora toda a experiência acumulada, quando não
a sabedoria que vem de altas paragens: antes, vamos procurar,
juntos, pelos caminhos possíveis. Iremos à busca
das emoções, mais profundas, entendidas não
como meros agentes instantâneos de motivação,
mas como fontes inesgotáveis que podem fornecer pura
energia, a partir do interior, suficiente para empreendermos
as mudanças que, primeiro, devem ocorrer em nós.
Nesta perspectiva, somos educadores em auto-re-construção,
a um passo de produzirmos uma revolução em nossas
vidas e, possivelmente, no meio em que atuamos e atuaremos.
Somos
buscadores.
Entendemos por buscador aquele que é um inconformado,
isto é, que não aceita passivamente como as
coisas se apresentam, simplesmente porque foram colocadas
por uma suposta autoridade ou porquê são decorrentes
da tradição. Cumprir uma tradição
não significa vedar os olhos, tapar os ouvidos e cerrar
a boca. Tradições são importantes porquê
ajudam nas travessias, mas, também, carecem de inovação
e leveza, de desafios e ousadia.
O professor que não ousa arriscar-se, não como
um mero jogador mas como aquele que acredita em sua contribuição
através do trabalho coerente, visto como dádiva
e oportunidade para o desenvolvimento da consciência,
não muda a si mesmo e nem ao entorno em que atua e
não pode sair do lugar: envelhece parado.
:: O passo do Mestre
O passo do mestre, no entanto, pode conduzir a campos
desconhecidos e maravilhosos. Pode transformar uma aula que
seria enfadonha, uma mesmice, em algo inesquecível,
por ser significativo. Pode renovar, verdadeiramente, experiências
e produzir alterações inesperadas e enriquecedoras
no meio em que atua. O que fica realmente na memória
deriva da emoção e não da razão.
Nos empenhamos tanto querendo que o aluno "aprenda e
fixe a matéria" mas desconsideramos, freqüentemente,
que "aprender e memorizar" tem a ver com emoção
e não com lógica, por mais perfeita que esta
pareça ser.
Quer ser um professor inesquecível? Transcenda a lógica
e opere no universo da emoção. Mas, cuidado:
emoção genuína não se confunde
com treatalismo! A emoção é algo que
contagia, a partir do invisível (lembra-se daquele
seu professor ou professora cujas atitudes marcaram sua vida?).
As concepções pedagógicas delineadas
neste artigo querem levar a inferir sobre educação
como um ato político. Educação é
ato político e deve se constituir em ato libertador.
Esta liberdade não se refere, em natureza, a um "deixar
livre", ou a um deixar fazer ingênuo, mas quer
significar, antes, um exercício para a liberdade, liberdade
de expressão, respeito pelo outro numa dimensão
inclusiva, apesar das diferenças, consciência
dilatada pelo exercício da razão e da crítica.
E mais: é preciso contemplar a construção
de conhecimentos como uma síntese social e política,
com história.
Quanto mais se aprofundam as reflexões e se definem
as concepções norteadoras para a ação
pedagógica, maiores serão as possibilidades
para se vislumbrarem os caminhos, métodos de trabalho,
e a inserção, daí sim, dos recursos pedagógicos
que podem ir de um toco de giz à última palavra
em TI - Tecnologia da Informação. Nesta abordagem
as diferenças de recursos entre escolas tendem a se
equalizar melhor pois não se ficará mais perseguindo,
por exemplo, os estereótipos: "boa escola tem
que ter, necessariamente, laboratório de informática
e projetor multimídia" - como se fossem as coisas,
em si, que fizessem a diferença! - mas sim, trabalhando
para que a melhor correlação pedagógica
possa ocorrer, contando com os recursos que se dispõe.
É justamente neste ponto que a consciência profissional
do educador pode prestar um auxílio decisivo. À
medida que este educador se diferencia, em sua constante busca
e ação reflexiva, carrega consigo as possibilidades
da mudança. Melhor equipado, contando com sua experiência
renovada, o educador pode mediar melhor e muito mais.
Vemos, uma vez mais, que pela mediação do professor
e, portanto por sua postura e decisões, passam os destinos
da escola e da Educação. Isto é algo
muito importante no ofício do educador. Devemos ainda
lembrar, nunca é demais, que o educador não
é só um mediador na formação de
opinião, mas também é uma ilha, não
isolada, que afetará rotas e visitas de muitos e muitos
estudantes. Precisamos pensar sobre isso com responsabilidade.
Por que hoje se fala tanto em formação continuada
do educador?
Ao longo do século XX muito se falou e pouco se fez
a respeito do tema formação do educador. No
entanto, a dimensão de continuidade tem mais a ver
com a percepção de que vivemos, provavelmente,
num período relativamente longo de crise na educação.
A palavra "crise" pode suscitar algo ruim ou desagradável,
em princípio. No entanto o estudo das crises, ao longo
da história, revela-nos fatos e aspectos inusitados
e muito importantes. Mudanças, mais ou menos significativas,
decorrem após as crises, algo em movimento, em transformação.
Crises abalam concepções, valores, paradigmas
enfim, e afetam o modo de pensar e agir das pessoas. Representam,
também, perigo e oportunidade e por isso costumam causar
medo e desconforto. Apesar disso, parece mesmo que não
sobreviveríamos sem elas.
As forças intrínsecas que contribuíram
para organizar um dado sistema acabam, no decorrer do tempo,
sendo responsáveis por uma cristalização
da estrutura formada e esta rigidez passa a não dialogar
com as mudanças do ambiente circundante. Neste ponto
surgem as tensões e com elas as crises. É preciso
que um investimento em energia se faça necessário
para dar conta de um processo de caos - desorganização
estrutural - afim de que uma nova estrutura, que passe a dar
conta do novo, seja paulatinamente formada. Se os tempos de
desorganização - reorganização
forem relativamente longos estaremos diante de uma reforma,
mas se forem curtos, então estaremos diante de uma
revolução.
Para finalizar ressaltamos que repensar a Educação
é o professor repensar o seu fazer e é também
se dar conta de que será a partir de sua reconstrução
diária que se sustentarão mudanças significativas
no processo educativo. Mas aqui há uma outra questão
importante: não dispomos de todo o tempo do mundo!
Há uma urgência, alguns aspectos a serem pensados,
decididos e que não podem ser retardados indefinidamente.
É por isso que o não engajamento do professor
nos processos de mudança que são, antes, suas
próprias mudanças, penaliza e compromete a dinâmica
dos avanços educacionais e, portanto, sociais. Este
aspecto reforça, ainda mais, a relevância da
atuação do professor que já se encontra
em exercício e daquele que está na universidade,
em formação.
A sociedade depende, vitalmente, da mediação
dos educadores tanto no presente, quanto para o seu futuro.
Mesmo sem que se possa saber como o futuro será, determinadas
decisões, inevitavelmente, afetarão o porvir.
Eis uma questão de escolha.
E
agora, professor?
Artigo apresentado por:
Maria Taís de Melo
Mestre em Psicologia e Doutora em Mídia
e Conhecimento pela PPGEP da UFSC.
|
|
Recomede
esta página
|
|
Imprimir
|
|